| Wallyson e o presidente do ABC Eduardo Machado |
Gol 100 de Wallyson pelo alvinegro gera polêmica sobre data
"Tribuna do Norte" (14/2/2026)
O "Frasqueirão" viveu uma tarde especial no sábado 7/2, dia do último confronto da primeira fase do Campeonato Potiguar entre ABC e QFC. O corredor humano formado pelos jogadores, o aplauso compassado da Frasqueira e a entrega da camisa emoldurada pelas mãos do presidente Eduardo Machado compuseram o cenário perfeito para celebrar o que o ABC anunciava como o centésimo gol de Wallyson com a camisa alvinegra — marcado na partida anterior, contra o Potyguar Seridoense. A festa estava pronta, o roteiro impecável e o ídolo, emocionado. Mas, enquanto o clube comemorava, uma descoberta silenciosa — e extremamente bem documentada — já havia colocado em xeque a contagem oficial.
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| Kolberg entrega um dos livros autorais ao memorialista José Ribamar Cavalcante |
A fagulha dessa discussão nasceu longe dos holofotes, fruto do trabalho minucioso do jornalista José Vanilson Julião, pesquisador dedicado à memória do futebol potiguar, e do também jornalista e bacharel em Direito Kolberg Luna, autor dos livros “45, um tempo de futebol e de um poema” e “Ribamar, o guardião da memória do futebol potiguar”. Juntos, eles revisitaram arquivos, súmulas, jornais antigos e registros esquecidos, chegando a uma conclusão que alteraria a linha do tempo do maior ídolo recente do ABC: o centésimo gol de Wallyson não aconteceu em 2026, mas sim em 22 de março de 2025, em pleno Clássico Rei, na Arena das Dunas.
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| JVJ levantou o questionamento para Kolberg ratificar em artigo exclusivo para o blog |
“A ideia do alerta não foi de questionar a façanha, que é grandiosa e extraordinária. Wallyson escreveu mais uma página na sua belíssima história no ABC FC, deverá ultrapassar Albano e Paulo Izidro e se tornar o terceiro maior artilheiro do clube de todos os tempos. Essa é a tendência! Ocorre que se a contagem tivesse sido mais detalhada, a torcida alvinegra teria vibrado com o centésimo gol exatamente diante do maior adversário, o que, sem sombra de dúvidas, traz outra dimensão para o feito”, destacou Kolberg Luna.
A origem da divergência remonta ao início da carreira do atacante. Em 16 de abril de 2006, jovem, desconhecido e ainda tendo o nome grafado como “Wallynson” pela imprensa da época, o jogador marcou seu primeiro gol pelo ABC em um amistoso contra o Corinthians de Caicó, no estádio Maria Lamas Farache. Esse gol, por não ter caráter oficial, foi ignorado pelo clube nas contagens posteriores. Para Julião e Luna, porém, a história não pode ser escrita com lacunas: se a bola entrou, se há registro, se há súmula, então o gol existe — e deve ser contabilizado.
A partir dessa premissa, a dupla recontou a trajetória do atacante e chegou ao ponto chave da polêmica: a partida América 1 x 1 ABC, válida pela ida da final do Campeonato Potiguar de 2025. Diante de 12.955 torcedores e sob arbitragem de Tarcísio Flores da Silva, Wallyson abriu o placar aos 21 minutos do primeiro tempo. O América empataria apenas no fim, com Souza, mas o que importa para a história é o que veio antes: aquele gol, registrado oficialmente, seria o verdadeiro 100º da carreira do Mago pelo ABC.
A ficha técnica reforça a solidez da descoberta. O ABC, comandado por Evaristo Piza, entrou em campo com Felipe Garcia, Ezequiel, Windson, Bruno Bispo, Manoel, Wellington Reis, Randerson, Adeílson, Joãozinho, Danilo Alves e Wallyson. O América, treinado por Moacir Júnior, tinha Renan Bragança, Ricardo Luz, Iran, Guilherme Paraíba, Rennan Siqueira, Ferreira, Davi Gabriel, Souza, Ítalo, Henrique e Giva. Nada ali é fruto de memória oral ou suposição: tudo está documentado, registrado e preservado.
Com isso, a linha do tempo ganha novos contornos. O gol de 2006 passa a ser o primeiro e, assim, o gol contra o América, em 2025, se transformou no centésimo da carreira do maior ídolo dos abecedistas na era Frasqueirão. E o gol celebrado agora, contra o Potyguar, assume o papel de 101º — ainda que oficialmente o clube mantenha a marca redonda para fins de uma justa homenagem.
A descoberta, longe de diminuir a festa, acrescenta profundidade à causa e reforça uma lição: todos os registros no futebol devem ser levados em conta, amistosos ou não. Importa o que está escrito na súmula. Para um jogador que sempre encarnou o espírito do Clássico Rei, há algo ainda mais poético no fato de que o centésimo gol de um ídolo abecedista tenha acontecido justamente em um duelo contra o maior rival, em uma final. É como se a história, mesmo ignorada por um tempo, tivesse encontrado uma forma de homenagear Wallyson da maneira como ele mais desejaria.
No fim, a homenagem prestada pelo ABC permanece justa e merecida. Wallyson alcançou um patamar raríssimo no futebol moderno, e a celebração no Frasqueirão traduz o carinho de uma torcida que o viu crescer, partir, voltar e se eternizar. Mas, graças ao trabalho rigoroso de José Vanilson Julião e Kolberg Luna, a história agora entrou no rumo correto.
A matemática pode ser questionada. A idolatria daqueles que conseguem marcar época, jamais.










