KOLBERG LUNA
O centésimo gol de Wallyson?
O assunto que incendiou o fim de semana esportivo na antiga capital chamada de espacial do Brasil e que ainda ecoa nas mesas de bar, nos grupos de whatsapp e nas resenhas boleiras foi o gol de Wallyson, do ABC, na virada diante do Potyguar de Currais Novos.
Um gol tratado como épico, cercado por narrações inflamadas, comentários exaltados e um pacote completo de emoção que rapidamente ganhou status de marco histórico.
Naquela noite agradável na terra da Scheelita, o Estádio Coronel José Bezerra virou palco de fogos, festa e euforia: celebrava-se, com todas as honras, o suposto centésimo gol de Wallyson com a camisa do ABC Futebol Clube.
O problema é que, no meio da explosão de alegria, a matemática ficou em segundo plano.
Quase despercebida em meio ao barulho da comemoração surgiu a análise lúcida e bem fundamentada do sempre atento repórter José Vanilson Julião, que, em sua respeitada coluna no "Jornal da Grande Natal", defendeu que o gol do ídolo abecedista teria sido, na verdade, o centésimo primeiro.

Reportagem da TN
Mais do que provocar, ele apresentou argumentos, questionou bases de dados amplamente utilizadas como os sites O Gol, Futebol 80 e Wikipédia, e apontou exatamente onde mora o erro.
Instigado por essa tese, fui aos meus próprios registros. Como alguém que se deu ao trabalho de catalogar todas as fichas técnicas dos jogos do ABC F.C. no Estádio Maria Lamas Farache desde a sua inauguração, não poderia deixar de conferir os alfarrábios.
Afinal, quando o assunto é contagem de gols, a polêmica costuma ser companhia constante. Nem Pelé escapou de revisões e revisitas à sua gloriosa estatística.
Embora os sites especializados indiquem que Wallyson iniciou sua trajetória de gols pelo ABC em 2007, os fatos mostram outra história.
Sua estreia aconteceu em 2006, ano em que também marcou seu primeiro gol pelo clube, no amistoso contra o Corinthians de Caicó, realizado no Frasqueirão, em 16 de abril de 2006, partida que terminou empatada em 3x3.
Curiosamente, a Tribuna do Norte, no Caderno Esportes (página 4, edição de 18 de abril), ao falar sobre o jogo, ainda tropeçou no nome da jovem promessa, grafando “Wallynson” — letras a mais que, ironicamente, pareciam antecipar os muitos gols decisivos que viriam.
Em 2007, veio a explosão nacional: 26 gols e a consagração. A partir dali, o “Mago” rodou o Brasil, empilhou gols, colecionou histórias, mas nunca escondeu a saudade do Frasqueirão, sua verdadeira casa.
O retorno aconteceu em 2018, como manda o roteiro clássico: o bom filho a casa torna, sorrindo a cada gol, faça sol ou faça chuva. Ainda em 2018, entre Estadual e Copa do Nordeste, marcou 9 gols antes de seguir para o Vitória/BA.
Em 2019, voltou em julho, já no fim de uma temporada desastrosa do ABC na Série C, anotando 3 gols em 8 jogos. Em 2020, vivia grande fase até sofrer uma grave fratura na perna pela Copa do Brasil: tinha 7 gols até fevereiro. Retornou apenas em novembro, quando ainda marcou 5 gols em 6 jogos.
Em 2021, permaneceu durante toda a temporada e balançou as redes 24 vezes. Em 2022, mesmo sem ser titular absoluto, fez 14 gols.
Já em 2023, envolvido em conflitos públicos com um antigo técnico, não renovou contrato, ficou o primeiro semestre sem clube e só voltou ao ABC sob o comando de Alan Aal, marcando apenas 1 gol no ano.
Em 2024 e 2025, a produção foi mais modesta: 7 e 3 gols, respectivamente.
Somando-se corretamente os gols marcados nas temporadas de 2006, 2007 e de 2018 até 2026, o número chega a 101 gols.
Ou seja: o gol comemorado com festa no dia 31 de janeiro de 2026 não foi o centésimo, mas o centésimo primeiro. A realidade é clara e está documentada.
O centésimo gol oficial legítimo aconteceu antes, em 22 de março de 2025, aos 21 minutos do primeiro tempo, na primeira partida decisiva do Campeonato Estadual, aproveitando o rebote de uma penalidade máxima desperdiçada.
Bem! A realidade pode até frustrar quem estourou foguete na data errada, mas tem um conforto, e que conforto: o gol da verdadeira centena balançou as redes do maior rival. E isso, convenhamos, sempre tem um sabor especial.

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