quarta-feira, 13 de março de 2019

Desabafo justo reflete pensamento de muitos jornalistas

Gérson de Castro

"Profissão de fé" - Dos meus 52 anos de vida, 30 foram dedicados ao jornalismo, profissão que escolhi ainda na adolescência, graças ao prazer de ler, a vocação para escrever e o desejo de conhecer pessoas e o mundo que ia muito além dos meus horizontes de menino pobre criado no bairro das Quintas, de que guardo boas recordações, amizades que ficaram pra sempre e lições que jamais esquecerei.
Destes 30 anos de profissão, 29 foram exercidos, sem susto e sem medo, graças ao diploma conquistado a custo de muitos anos de estudos.
Fui o primeiro dos nove filhos de dona Aparecida a obter o tão sonhado diploma universitário. Foi a primeira grande conquista da minha vida. O diploma levou ao registro profissional, o reconhecimento e abriu em definitivo uma estrada que me levaria a muitas experiências - muitas exitosas, outras nem tanto.Não me arrependo das escolhas que fiz. Me arrependeria se não as tivesse feito.
O jornalismo não me trouxe fortuna. Mas me deu um conjunto de coisas de valor inestimável. Conheci lugares e pessoas e vivi experiências com as quais sequer sonharia aquele menino franzino, otimista e sonhador vindo do interior, que teve as Quintas como berço e o presente divino de ter uma mãe batalhadora, determinada e valorosa.
O jornalismo me possibilitou momentos memoráveis e a realização de sonhos. Vi de muito perto um papa que virou santo, entrevistei presidentes e personalidades políticas do tamanho e do naipe de Ulysses Guimarães, Mário Covas e escritores como Fernando Sabino e educadores como Paulo Freire, para citar apenas alguns dignos de prazerosa reverência.
O jornalismo tornou possível, também, criar os filhos e dar minha modesta contribuição, ao lado de valorosos colegas, ao que considero como um dos maiores legados da profissão: o exercício da cidadania e a defesa do estado democrático de Direito.
Há alguns anos, juízes decidiram, de forma equivocada e antidemocrática, que a obrigatoriedade do diploma universitário roubava dos que não o tinham e ainda não o tem o direito inalienável da liberdade de expressão.
A eles respondi que não, indignado com a comparação indevida, com o estabelecimento de um conflito inexistente. E continuo dizendo não.
O meu diploma de jornalista profissional não fere o direito à liberdade de expressão de quem quer seja. Principalmente no mundo atual, em que qualquer pessoa pode ser provedora de conteúdo e ocupar seu lugar no vasto mundo, sem limites, da internet, com sites, blogs e perfis no Face, no Twitter ou Instagram.
Não tenho absolutamente nada contra quem não tem o diploma universitário. Não me sinto nem ouso me achar melhor do que ninguém pelo simples fato de tê-lo. Mas os quatro anos vividos nos bancos da UFRN, ao lado de valorosos companheiros que abraçaram a profissão, me deram uma visão de vida, a consciência da responsabilidade social, a formação política e a amplidão do papel de cidadão numa sociedade que se pretende livre e democrática.
Nesses 30 anos de profissão, vivi altos e baixos, vitórias e derrotas, ganhos e perdas. Mas procurei zelar pela ética, honrei os princípios da profissão, defendi a liberdade. Comemorei acertos e reconheci erros, quando eles aconteceram. E apesar de ter investigado, elaborado e assinado matérias polêmicas que envolveram acusações criminais, jamais respondi a processo por danos a quem quer que seja. Respeitei meus companheiros, principalmente os mais novos, que sempre necessitam de alguém que lhes abra a porta e saiba transmitir conhecimentos e experiência.
Agora que as duas casas do Congresso Nacional podem, num gesto de rara grandeza, desfazer uma injustiça com a categoria dos jornalistas e repor a obrigação do diploma universitário para o exercício profissional, clamo, como sempre fiz, por Democracia e pelo reconhecimento de um direito, sem jamais esquecer os deveres.
Quero o meu diploma de volta. Tenho direito a ele. Lutei para conquistá-lo, exerci e exerço com ética, zelo e destemor a minha profissão
E quando olho para trás, falo com orgulho do que fiz e faço.
Sou jornalista profissional, diplomado.
E absoluta e intransigentemente a favor da liberdade de expressão, que, como diria Ruy Barbosa, é a mãe de todas as liberdades

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