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| Nestor Lima |
Vitor Rodrigo Dias
"RN Futebol Clube" (4/3/2026)
O episódio envolvendo América e Potyguar Seridoense no certame de 2026, se não foi exatamente uma crise, ao menos deixou o campeonato paralisado por algumas semanas.
O mesmo não pode ser dito do que ocorreu no ano da graça de 1949, quando dirigentes ligados ao América atropelaram o processo eleitoral na então FND e provocaram um racha absolutamente tenso entre os filiados.
Naquele ano metade dos oito clubes filiados à Primeira Divisão – ABC, Juventus, Potiguar de Parnamirim e Santa Cruz – pôs-se em oposição ao presidente da FND, Rui Barreto de Paiva, ex-presidente do América, enquanto apenas o alvirrubro e o Atlético lhe manifestaram apoio – Alecrim e Riachuelo, este recém fundado e recém filiado, se mantiveram neutros.
Em reportagem do Diário de Natal (30/4/1949), um dia antes do torneio início, ao qual não compareceram os quatro clubes dissidentes, foi publicada a seguinte declaração de “um influente paredro do futebol da cidade, pertencente a um dos clubes da dissidência”, que explica bem os seus motivos:
- Em 31 de dezembro do ano passado o capitão Fernando Correia Leitão pretendeu impor o nome do senhor Rui Barreto para dirigente dos destinos do futebol natalense em 1949.
A maioria dos clubes natalenses opôs-se, formalmente, à candidatura em referência por verificar, claramente, que o candidato possuía como única qualidade a condição de saber servir, com devotamento e paixão, aos interesses do AMÉRICA, ao qual servira tão bem como seu presidente.
Os direitos dos demais clubes seriam, pois, relegados, esquecidos, torpedeados… sem apelação e sem cerimônia.
Os clubes contrários à eleição de Rui Barreto, como é do conhecimento público, em virtude de uma série de truculências e mistificações verificadas na sessão de eleição, abandonaram a chistosa reunião, em que o próprio candidato, na presidência eventual dos trabalhos, decidiu, em prol de seus interesses, todos os casos surgidos. Foi, em verdade, o próprio candidato o seu maior eleitor, tudo fazendo e tudo envidando para forçar a eleição de si mesmo.
Os clubes dissidentes dirigiram, então, à CBD um memorial com documentação farta e solicitaram o pronunciamento da mentora nacional. Aguardam, passados vários meses, a decisão da entidade máxima do futebol nacional.
Demorando a solução do “caso”, Rui Barreto entendeu de iniciar o certame oficial de 1949, esquecido e esquecido cedo demais de que, no ano passado, 1948, por motivo da inauguração da “boite” do AMÉRICA e campo de futebol, o Campeonato foi iniciado a 25 de Julho.
Contra fatos falham e falecem os argumentos. Pergunta-se: por que tanta pressa em 1949, quando, em 1948, o Campeonato Natalense de Futebol teve seu início no último domingo de Julho? Por que não se aguardar a decisão da CBD?
No dia 26 de abril o Conselho Regional de Desportos do Rio Grande do Norte, em reunião envolvendo todos os lados para tentar pacificar a situação, resolveu ratificar o ato que marcou o Torneio Início para 1º de maio de 1949, com a promessa de que “após o Torneio Início, o atual presidente da Federação Norte-Rio-grandense de Desportos, num gesto de alta compreensão esportiva, se afastará de suas funções, aguardando a decisão da Confederação Brasileira de Desportos”.
Em 28 de abril a FND publicou ato punindo o Santa Cruz com multa por não ter comparecido à partida decisiva do campeonato de aspirantes de 1948 contra o América e também publicou resultados de julgamentos negando recursos do Potiguar, que pleiteava os pontos da partida de 22 de agosto de 1948 contra o próprio América, que vencera a partida por 4 a 3; e do Santa Cruz, protestando a contagem de WO em seu desfavor no caso da partida decisiva do campeonato de aspirantes de 1948.
A publicação desses atos e julgamentos logo após a tentativa de pacificação feita pelo CRD-RN foram considerados uma afronta pelos clubes dissidentes, que não compareceram ao Torneio Início.
O Conselho condenou as atitudes dos dois lados e desistiu de nomear um interventor para a FND, deixando que o assunto fosse decidido pela Confederação Brasileira de Desportos. A FND, por sua vez, aumentou ainda mais o tom contra os dissidentes, decidindo multar cada um em Cr$ 200,00, excluí-los do campeonato de 1949 e cassar o registro de todos os jogadores inscritos pelos referidos clubes, essencialmente tornando-os livres para ser inscritos pelos demais clubes – Alecrim, América, Atlético e o novato Riachuelo.
O campeonato começou sem os quatro dissidentes e prosseguiu até o final de junho, quando terminou o primeiro turno da competição, com tão-somente seis partidas.
Enquanto isso o quarteto de dissidentes jogava um torneio amistoso entre si, no velho estadinho do ABC no bairro Petrópolis – que também levava o nome de Maria Lamas Farache, a exemplo do atual Frasqueirão – e conseguia rendas semelhantes ou até maiores do que as registradas no Juvenal Lamartine pelo campeonato oficial.
Em 7 de julho o Diário de Natal noticia que o América propôs o nome do tenente Carlos Bezerra de Miranda, oficial da Base Naval de Natal, para ser eleito pelos clubes em substituição a Rui Barreto na presidência na FND, que renunciaria ao cargo.
A sugestão foi apresentada a um dirigente do Santa Cruz, que elogiou a iniciativa, mas ressaltou que a pacificação não chegará enquanto não houver discussão sobre a série de punições aos clubes dissidentes.
O Diário de Natal também procurou o presidente do ABC, João Ferreira de Souza, para saber a opinião sobre a sugestão.
Ele afirmou ser uma boa fórmula, mas que “não poderá ter execução sem que seja mantido o ‘status quo’ (sic) de 31 de dezembro de 48, pois o nosso recurso, como sabe, se firma precisamente nas eleições então realizadas e processadas irregularmente.”
Na semana seguinte a imprensa noticiou que Nestor dos Santos Lima, advogado, recebeu telegrama da CBD, perguntando se ele aceitaria ser indicado como interventor na FND, incumbência que Nestor aceitou.
Dessa forma a CBD deu provimento ao recurso dos clubes dissidentes, anulando os atos de dezembro de 1948 do então presidente Fernando Leitão, dos quais resultou eleito Rui Barreto. Em reunião do dia 24 de julho, na sede do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, ficou acertado o dia 7 de agosto para as novas eleições. Após consulta do interventor à CBD, esta afirmou que os atos administrativos de Rui Barreto deveriam ser considerados válidos, enquanto aqueles “que importarem em apreciação e decisão sobre os direitos dos filiados devem ser revistos pelo Interventor, que [...] dará solução compatível com as leis, estatutos e regulamentos.”
Dessa forma o interventor baixou atos nomeando novos diretores e anistiando os quatro dissidentes, além de anistiar também o Centro Náutico Potengi e o Sport Club de Natal, ativos em outros esportes sob a tutela da federação, e que também haviam sido punidos por atos do presidente afastado Rui Barreto.
Em 31 de julho foi realizado um amistoso entre Potiguar de Parnamirim e Santa Cruz, que marcou o retorno dos dissidentes ao estádio Juvenal Lamartine e terminou empatado (3 x 3). Em 7 de agosto a eleição transcorreu normalmente e o tenente Carlos Bezerra de Miranda foi eleito por unanimidade para a presidência da FND. O candidato a vice-presidente Enéas Reis (fundador do ABC) também foi eleito por unanimidade.
Por fim, em agosto, o Juventus solicitou à FND licença por um ano, que foi concedida através de despacho da presidência no dia 8 de setembro, ficando todos os jogadores inscritos pelo clube livres para inscrição em outros times.
Em seu lugar solicitou filiação o União Sport Club, de Parnamirim, formado por oficiais da Base Aérea de Natal, que disputaria apenas as edições de 1949 e 1950, e que também se desfiliaria após atrito com a Federação.
Não encontramos nos jornais nenhum ato oficial que anulou o certame já iniciado pela gestão anterior da FND mas, na esteira da pacificação, era a atitude mais natural a se tomar.
Como consequência de um campeonato começado tão tarde o Potiguar de 1949 teve apenas um turno e viu o América ser campeão invicto: seis vitórias e um empate.

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