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domingo, 7 de junho de 2026

O caicoense que "fugiu" do Sport Clube Recife (XIII)

O artigo é uma definição singular do atleta amador "fugitivo"

Do blog do "Bar de Ferreirinha" (Caicó / 2016)

O NEGRO CHAGAS, UM CRAQUE

FRANCISCO DE ASSIS BARROS (CIDUCA)

Atualmente o futebol brasileiro vem atravessando uma longa entressafra de bons jogadores, consequentemente, amargando um grande jejum de títulos internacionais e nos causando muita vergonha (vide o vexame do famoso 7 x 1 na decisão com a Alemanha).

Assistir na tevê a uma partida de futebol do maior campeonato do país – Campeonato Brasileiro –, mesmo sendo da primeira divisão, é, para nós que já vimos grandes clássicos no passado, um doloroso exercício de paciência.

Recentemente, assistindo ao jogo Flamengo x Vasco da Gama, tive o desprazer de ver um atleta envergando o uniforme que grandes craques já vestiram (Ademir Menezes foi um deles), bater um lateral para fora.

Quando eu escrevo “para fora” não significa dizer que a bola saiu lá do outro lado do campo, não; a bola “pererecou”, pegou um efeito esquisito e saiu na mesma linha que o batedor estava. 

Sintetizando: o futebol brasileiro está cheio de pernas de pau. E esta carência de craques vai demorar a passar. Quais são as promessas que atualmente vemos no futebol do Brasil?

À vista da péssima qualidade do futebol brasileiro, venho me lembrando de um dos maiores jogadores de futebol que eu vi jogar: o Negro Chagas, do Caicó Esporte Clube, nas décadas de 1950/1960.

Desculpem os censores de plantão, sei que é politicamente incorreto, mas não posso dissociar o adjetivo “negro” do nome daquele craque, pois era assim mesmo que, carinhosamente, ele era chamado por seus inúmeros fãs: Negro Chagas.

Chagas, um moreno baixo, com longos braços e com um andar balançante, parecia ter molas nos membros inferiores.

Ele jogava de meia-esquerda, driblava como ninguém, habilidoso, versátil, chutava forte e fintava magistralmente, por isso era muito difícil de ser marcado.

Era excelente batedor de faltas, fez muitos gols de fora da área e quando o grande Didi, também meia-esquerda, criou a imbatível folha-seca, possivelmente teve nele o seu mais aplicado seguidor. Ou será que ele começou a folha-seca antes de Didi?

Era de baixa estatura, mas, com muita impulsão, eu o vi marcar gols de cabeça.

Eu e todos os jovens daquela época, amantes do futebol praticado em Caicó, tínhamos no Negro Chagas o nosso ídolo maior.

Lembro-me bem de que colecionávamos as revistas de futebol daquele tempo “Esporte Ilustrado” e “Revista do Esporte”, ansiosamente esperadas, pois vinham semanalmente de Natal, nos ônibus de Artur Dias, trazendo as reportagens dos grandes jogos realizados no Rio de Janeiro e São Paulo, bem como as fotos dos bons jogadores daquela época.

Tínhamos certeza de que as jogadas do Negro Chagas e seus inúmeros gols apenas não eram registrados naquelas revistas porque ele jogava na distante Caicó, lá no nosso Seridó.

Particularmente eu sempre achei que aquele moreno humilde, sapateiro de profissão, com um molejo no andar, exímio com uma bola nos pés, seria capaz de jogar em qualquer time do Brasil. E, posteriormente, eu comprovei isto.

Em 1964, eu chegava em São Paulo, pela primeira vez. Fui diversas vezes ao Morumbi e assisti ali a vários jogos com a participação de atletas daquela época. Eu vi o Palmeiras de Ademir da Guia. Eu vi o Santos de Pelé.

Nas frias noites paulistanas, assistindo aos jogos naquele estádio com um gramado impecável e um público que não parava de gritar o nome dos seus ídolos, vinha sempre à minha memória a lembrança do Negro Chagas.

Ele tinha futebol de sobra para jogar ali. E naquele momento, eu dizia para mim mesmo: “Chagas jogaria, sem favor nenhum, em qualquer desses grandes times aqui de São Paulo! ”.

Em 1971, fui para o Rio de Janeiro. O país vivia a euforia de ter sido, merecidamente, Tricampeão Mundial de Futebol, no México. Eu ia ao velho Maracanã, semanalmente. Vi grandes clássicos e grandes jogadas realizadas por jogadores de renome.

Eu vi o Vasco de Brito. Eu vi o Flamengo de Zico. Eu vi o Botafogo de Jairzinho. Mas, infelizmente, também vi muitos jogadores de grandes times bater na bola com a canela.

E sempre falava com meus botões: “O Negro Chagas seria tranquilamente titular absoluto em qualquer desses times cariocas”.

Ultimamente tenho me lembrado daquele craque caicoense do passado, quando vejo, na tevê, as entrevistas de alguns jogadores de futebol de hoje ou de seus treinadores (hoje chamados de professores. Professores de quê?) tentando justificar as “merdas” que fizeram em campo:  

 – Nosso desempenho não foi o esperado porque a grama estava muito alta! – disse um.

E eu comigo: “conheci um cara que no velho e desconfortável campo de futebol do Ginásio Diocesano Seridoense, onde havia mais pedra e areia do que gramado, botava a bola onde ele queria. O que ele não faria numa grama alta?’ 

 – Tivemos problemas porque o clima não nos ajudou! – falou um certo técnico (professor?).

E eu pensei: “vi um craque que fazia jogadas monumentais no sol escaldante do Seridó! ”

Certa feita, um atleta, “perna de pau” milionário, desculpando-se de suas “cagadas”:

 – Eu estava com as chuteiras erradas. Deveria ter posto chuteiras de travas altas”.

Estarrecido, voltei a minha memória, mais uma vez, para Caicó do passado: “calçando um desconfortável e duro par de chuteiras, feito lá mesmo em Caicó, conheci determinado jogador de futebol que fazia jogadas incríveis”.

Para mim esta é a maior de todas as aberrações:

 – Não estávamos acostumados com aquela bola. Ela é mais leve do que...

Esta frase não é uma verdadeira “diarreia mental”? O peso da bola influenciando nas jogadas? E o peso dos dólares no bolso?

Não pude deixar de pensar: “com uma bola (capotão?), que nunca ninguém sabia o peso, que ainda tinha um pito que, muitas vezes, lhe dava um efeito traiçoeiro, eu conheci um craque que ‘comia aquela bola’ sem se importar quanto pesava”.

Recentemente, assisti a uma entrevista inteligente do magistral Rivelino. A certa altura o entrevistador lhe perguntou qual, na opinião dele, seria o diferencial de um craque de futebol para um jogador comum.

Brilhante como ele sempre foi, sintetizou dizendo: “o jogador comum, quando recebe a bola, todo mundo já sabe a jogada que ele irá fazer. O craque, não. Este é imprevisível. Toda vez que ele está com a bola, faz uma jogada diferente”. Seria necessária uma maior explicação? 

Chagas chegou a ir para o Sport Club do Recife e dizem que, com saudade da terrinha, ele voltou para o aconchego de Caicó. Se verdade, eu não o condeno por isto, pois eu também pensei, em várias ocasiões, fazer também meu regresso ao lar.

Para você, eu declaro sem medo de errar, Negro Chagas: daquela geração de jogadores de futebol do seu tempo, seja nos tórridos campos do Seridó ou em outras partes do Brasil, eu vi poucos melhores do que você! 

E lhe digo mais, Chagas: atualmente, desses milionários pernas de pau que acumulam milhões em suas contas bancárias e posam de craques, ninguém joga mais do que você jogou, negro velho!


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